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6.10.2008

Eu sou poeta,
tenho cara de menina, jeito de mulher e uma história longa de vida,
muitos anos vividos, de onde só guardo coisas boas,
já esqueci as tristes e cultivo sorrisos...
Eu gosto de gatos
Passo horas olhando prum gato dormir, andar, se roçar...acho lindo !
Deixo minha gata estragar meu sofá e me sinto visita em casa, por causa dela
Eu gosto de meus amigos
Deixo meus amigos me dizerem o que pensam
Não é que eu goste quando dizem eu não gosto,
mas ouço, de cara feia, depois abraço e faço um sorriso
eu gosto de bolo de chocolate
mas confesso que faço pra lamber a vasilha da massa
eu gosto de lamber os dedos e limpar na roupa
coisa que minha mãe não me deixava fazer
e nem eu deixava minha filha fazer
é...eu tenho cara de filha mas já sou mãe
e tenho coração de mãe
apesar de muitas vezes gostar tanto de me sentir mais filha
eu gosto de andar na Av. Paulista, sinto que ali é meu lugar
sinto saudades de pessoas que vejo pouco
mas entendo que cada uma tem a sua hora e coisas mil pra fazer
eu dirijo bem quando ouço música alta
e seu “dirijir” mal nestas horas, juro que nem noto e nem ligo
porque não importa como se escrevem as palavras,
importa como se diz e sente as coisas que elas contém...
eu canto desafinado, pelo puro prazer da música
ah...eu amo música !
desde as bregas, até as clássicas, rock, blues, mpb, tudo !
e acho que devia ter um rádio enorme pendurado no céu
pra todo mundo viver ouvindo também e cantando junto
qualquer música me alegra a alma
algumas muitos mais, mas até as bregas eu gosto
eu falo demais de mim se deixar
e quero tanto saber de vc
se vc deixar...


By:Aalves ¨Críticas e comentários são bem vindos!

6.4.2008

Entao a vida é feita de músicas....
cada momento, seu som, sua música especial

mas e quando a gente encontra uma pessoa que faz vc lembrar dela a cada música ? E cada som, cada verso, cada melodia é nela que vc pensa ? E quando a letra não bate, e vc muda a letra pra bater ? E quando vc descobre que ali vai ser o começo de uma longa historia que vc queria tanto viver ? E mesmo a pessoa descabelada, vc gosta, mesmo o riso infantil, vc ri também, e mesmo quando parece que vai brigar, abre um sorriso que te desarma, então...pra que usar armas ? Eu joguei todas elas quando conheci você...

e eu sei que já te desarmo com minha voz

é lá vamos nos cantar músicas bregas novamente ! eheheh....

A vida tem sons que pra gente ouvir precisa aprender de um amor de verdade ....


By:Aalves ¨Críticas e comentários são bem vindos!

5.16.2008

Surgiu como um clarão
Um raio me cortando a escuridão
E veio me puxando pela mão
Por onde não imaginei seguir
Me fez sentir tão bem, como ninguém
E eu fui me enganando sem sentir
E fui abrindo portas sem sair
Sonhando às cegas, sem dormir
Não sei quem é você

O amor em seu carvão
Foi me queimando em brasa num colchão
E me partiu em tantas pelo chão
Me colocou diante de um leão
O amor me consumiu, depois sumiu
E eu até perguntei, mas ninguém viu
E fui fechando o rosto sem sentir
E mesmo atenta, sem me distrair
Não sei quem é você

No espelho da ilusão
Se retocou pra outra traição
Tentou abrir as flores do perdão
Mas bati minha raiva no portão
E não mais me procure sem razão
Me deixa aqui e solta a minha mão
Eu fui fechando o tempo, sem chover
Fui fechando os meus olhos, pra esquecer
Quem é você? Quem é você? Quem é você?
Você...

Carvão - Ana Carolina


Eu vou sempre colocar a música pois é assim que vivo...amo música ! Depois de viver anos de maneira automata, eu faço o que gosto, e sou autêntica, e ouço muitaaaa música, pois elas falam a língua da alma, como os poemas que eu teimo em rabiscar...

Esta música fala de pessoas que aparecem sem querer, sem saber na vida da gente, daquelas pessoas que tiram meu chão e depois...pufff...somem....

e ando me acostumando a não ter mais chão eheheh....é assim que se aprende a voar ?

e vou sofrendo menos, esperando menos, aprendendo que a vida é feita de momentos raros, pessoas lindas, que abastecem minha existência com a existência dessas pessoas. Eu não sofro mais, pois se a vida pode ser música, se cada momento é único, pra que se apegar a eternidade que não existe ?

ta...eu não sou forte, faço que sou, não sou pedra, sou maleável, mole, pegajosa rsrssr...sim eu choro, mas ninguém vai saber, eu choro pelo luto do que não sei se vai ser pra sempre, porque o pra sempre sempre acaba ???

por que as pessoas vem e vão ? pra me ensinar algo, pra me mostrar a vida de um novo jeito, porque cada um é um universo único e memorável e eu quero aprender de todo tipo de universo....

foi assim que publiquei meus poemas, assim que encontrei certos livros, assim que achei certos lugares, e cada pessoa fará parte de mim, mesmo que ela queira ir embora...sim isso eu aprendi, que não possuo ninguém, que não as tenho, as não ser em partes que guardo dentro de mim, deve ter algum poema meu que fala disso rsrs...sempre tem.

Só que chega uma hora que vc quer tirar a pessoa de você, porque você sabe que ela vai embora, daí tem que se afastar, mesmo que ela te faça muito bem, tenho que deixar ir...

Ah...detalhe...é assim que estou aprendendo a voar, ficando sem chão...

Foi assim que Fernão Capelo Gaivota tornou-se uma gaivota diferente !


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5.7.2008

Música do dia
Oração Pro Dia - Teatro Mágico

Ha manhãs que me trazem o medo
De ter perto de um alguém
Quando as prantos me vejo sozinho
Sei que aqui no mundo espero alguém:

Alguém que (3X)
Que me faça esperar pelo agora

Pássaro canta a Flor floresce ao dia
Bom ouvido para quem acorda o céu
Quantos rostos o acaso me traz
Um momento realento de minha oração

Horas são
Horas vão
Horas são
Poeta que brinca de pega-pega te busco em minha composição

Tua saudade que fosse metade minha
Que me encontrasse como as horas encontra o dia

Poeta que brinca com a Dona esperança
Por que a vida é o coletivo das horas que são pro dia
===============

Eu não escrevo bem contos, já disse, então parto de músicas, que são as que ilustram tanto sentimento, poesia, cenas, e fatos...há coisa melhor ?

Esta música fala do medo que sentimos em ter alguém, mas ao mesmo tempo, do vazio que a solidão traz, melhor mesmo é largar o vazio e esquecer o medo né ?

Vida ...

Vontade de amar alguém e de ser amada
Vontade de não decepcionar as pessoas e mostrar a elas que sou perfeita
Vontade das pessoas perceberem que não sou, rirem disso e mesmo assim ainda me acharem o máximo
Vontade que o dia tivesse mais de 24 horas e que eu pudesse passar mais tempo no msn
Vontade que certas pessoas saissem do mundo virtual e se tornassem realidade, de carne e osso

Sou assim, cheia de vontades, e quem não é ???
srsrsr...


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4.24.2008

Este era pra ser um blog e contos, mas eu não sou boa pra contos, já vi tudo...então vou escrever mais, sobre mim mesma, meus pensamentos, músicas da minha alma, tudo o que me toca e assim vai rsrss...

===========================
Como despedir-se de um amor amigo ?

Como dizer pra um amigo que você sabe que ele não te quer apenas como amiga ? Como dizer pra ele que você até queria gostar dele ?
Como dizer pra um amigo o quanto ele é especial, que você sente sim falta dele, que adora estar com ele, que vocês gostam das mesmas coisas e até pensam igual, mas não é amor, não tem tesão, não rola ? Como fazer isso sem magoar o outro, sem destroçar um coração que não merece sofrer ? Como não se identificar com a dor de um coração que ama mas não é amado, como tantas vezes eu também fui ?

É isso o que me preocupa nestes dias...não queria ter passado por isso, não queria ter ouvido metade do que ouvi dos meus amores antigos, queria que tudo fosse mais fácil, natural e espontâneo. Motivos que a gente nunca entende, o que separa as pessoas assim ? Por que se escolhe tanto e por que nunca escolhemos quem amar ? Por que também não somos a escolhida de quem escolhemos ?

Coisas pra pensar...

É meu amigo...
O que eu queria mesmo, é correr e poder te amar como uma irmã, porque muitas vezes eu queria ter meus irmãos tão perto como você está de mim agora.
Aconteceu de você entrar na minha vida assim, com seu jeito leve, solto, bem humorado, gentil, pessoa tão doce que você é.
Mas realmente, não posso continuar com esta amizade que pra você é muito mais do que apenas mera amizade.
Então mesmo que me custe, mesmo que eu saiba que dificilmente encontrarei alguém tão raro quanto você, me afasto.
Quero o seu bem e quero que você saiba que não sou a pessoa certa pra você.
E isso me dói, porque ouvi isso tantas vezes de pessoas que amei e agora, com um espelho, eu repito a mesma frase maldita.
O bom de tudo isso é que consigo entender meus amores impossíveis agora, a angustia que eles sentiram, é a que me aperta o peito agora.


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11.28.2007


Clamor desesperado de uma mente sem lembranças

Queridos amigos

Eu não sou de passar correntes, nem de enviar torpedos, mas é que desta vez o assunto além de muito pessoal é realmente sério.

É o seguinte meus amigos, há exatos 365 dias meu marido se foi de casa, desde então eu já passei por diversas fases, e alguns de vocês até puderam acompanhar a minha novela.

Tive a fase da liberdade, de sair todos os dias e não ter hora pra voltar e deixar a louça apodrecendo na pia até que o vizinho do 12, aquele velho antipático, quis chamar os bombeiros porque achou que tinha alguém morto no meu apartamento.

Tive a fase dos porres, quando quebrei taças em festas de aniversário de crianças e fui isolada no quartinho de empregada de uns amigos, tive a fase de cair da cadeira no barzinho, porque a cadeira teimou em se mexer bem na hora que tentei segurar a mesa e fomos todos parar no chão. Todos riram e fizeram piada, alguns devem até ter tirado fotos ou filmado pra me colocar no youtube, gosto de ver meus amigos felizes assim eheheh...

Depois veio a fase do arrependimento, quando comecei a conversar com o pastor Sérgio, daquele programa “Fala que eu te escuto”, sabem...bem...vocês não devem saber mesmo, “magina”, afinal o pastor só começava a pregar às três horas da manhã !

Tive fases de passear no shopping e comprar tudo o que via pela frente, tive fases de quebrar o cartão quando chegou a conta, tive fases de ajudar velhinhas a atravessar a rua e passar horas conversando com uma delas até descobrir que ela não me escutava mesmo.

Só me minha fase atual me deixou realmente preocupada ! Sim, porque eu desenvolvi um sexto sentido com minhas plantas sabem ? Lí aquela enciclopédia botânica e coloquei a maioria das plantas catalogadas pra brotarem no meu observatório. Tudo bem que fica no meio da sala, mas a sala andava meio vazia mesmo.

Bem, voltando ao meu sexto sentido, minhas plantas, eu descobri, crescem muito mais felizes quando coloco nomes nelas, então comecei a nomea-las: as begônias têm nomes que terminam em Ana, Mariana, Floriana, Marciclana, Lana e assim vai. As samambaias têm nomes de senhora, Florinda, Lucinda, Desdinda. Já os cravos tem nomes de rapazes americanos, tem o Brad, o George, o Lucas, e claro, as rosas chamam rosas mesmo.

Ainda tentando tocar no assunto do sexto sentido, elas, as plantas conversam comigo sabem ? Elas me contam seu dia, o que viram lá do alto da janela, como a umidade do ar afeta suas folhas. O que acho iritante é a rivalidade entre as begonias e as samambaias, nunca pensei que pudessem ter personalidades tão fortes estas plantas !

Bem amigos, e amigas, este email, mensagem, carta, fax, é pra pedir a vocês que façam uma corrente pra mim, que vasculhem suas agendas e gavetas e me encontrem um namorado. Já faz um ano que meu marido se foi, e realmente ando me sentindo estranha com tantas plantas e vozes pela sala.Vejam bem, o pretendente tem que cozinhar bem, ter bom humor e gostar de plantas. Eu aceito homem até calvo e de barriguinha sabem ! Mas esta solidão eu não aguento mais meninos e meninas.

Como vocês sabem, eu tenho muito a oferecer, sou bonita, inteligente, muito educada, até culta às vezes, gosto de informática e arranho uns idiomas. É claro que vocês não precisam contar aos bofes sobre as particularidades psicóticas de minha personalidade né ? Afinal vocês são meus amigos ou não são ? Uhm....esperem ai que vou perguntar às begônias e preciso apartar as samambaias dos cravos....até !


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11.18.2007



ASFALTO QUENTE

Andava apressado, preocupado com o horário curto pra fazer tanta coisa: contas a pagar, documentos pra organizar, projetos novos, prazos e pressão da chefia. Andava apressado pela avenida movimentada, era um dia chuvoso e isso trazia mais um problema: transito infernal, o nervoso era maior, anormal. Quase corria por entre as pessoas, até que tropeçou, olhou para o chão de asfalto, viu uma poça d´água. Incomodou-se por molhar os pés naquela água, a água tinha uma cor estranha e escura, a água foi ficando maior, já tinha água até os joelhos, não dava mais pra continuar com aquela correria, a roupa suja e molhada, desolado, parou, sentou-se no chão de asfalto. Passou a contemplar a poça d´água jogada em vão no asfalto. Viu de repente uma imagem na água, era seu reflexo refletido, assustado, pensou no reflexo, pensou em si mesmo, questionou-se: “- Como seu rosto, coubera numa poça d´água ? “ Esqueceu-se da multidão anônima de transeuntes que passavam ao seu redor, sentado no asfalto, percebeu que não era realmente frio. Sentiu-se ausente do mundo e, perdido, começou a chorar em cima da poça d´água. Descobriu enlevado que ele existia! Sentia agora o sal de suas próprias lágrimas, lágrimas de alguém que, vivo, acabara de nascer.


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10.8.2007


A PROMESSA DE UM BEIJO

Observei atento quando ela jogou os cabelos, arrumou um cacho que teimava em cair. Quando ela sorriu, distraída, meiga, doce e linda, tive vontade de fixar meu olhar e ali fiquei a olhar aquela boca, enquanto meu olhar explorava cada detalhe do seu rosto.

Quando fixei em seus olhos, ela, encabulada, tudo compreendeu, como somente as mulheres sábias sabem fazer - as mulheres são seres naturalmente maliciosos - ela entendeu que eu queria tanto beija-la.

Mas não era somente isso que eu queria, minha alma sedenta ia querer mais, em meu olhar eu disse tudo: disse que a queria por inteiro, disse que iria despi-la rapidamente, que iria beijar cada pedaço de suas entranhas, que iria ser paciente até ouvi-la gemer. Meu olhar disse a ela que eu iria abraçá-la depois do cansaço, pois eu seria capaz de passar a noite sem egoísmo, assistindo ao gozo de seu corpo em minhas mãos. Num olhar eu disse tudo, num demorado beijo eu iria selar minhas promessas.


Mas...


...o elevador chegou ao andar e ela teve que sair, segurando firme a pasta preta e cheia de documentos.


Voava longe mais uma paixão não consumida pelo ascensorista do bloco C.


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9.28.2007



COISAS DE MENINA QUE OLHA PRO TETO DE PERNAS PRO AR...

Eu sei que não adianta pensar no passado
Porque ele já foi, já era
E não volta mais

Mas às vezes me pego pensando
Em como seria minha vida
Se não tivesse atravessado aquela rua
Se morasse na mesma casa desde menina
Se não tivesse pulado a janela pra ir namorar escondido

Porque...
Se eu não tivesse atravessado a rua,
Ficaria parada na mesma calçada
Se eu morasse na mesma casa desde sempre
Morreria de tédio da mesma paisagem
Se eu não tivesse pulado a janela
Nunca saberia o gosto do proibido

Então hoje em dia
Quando eu vejo tanta mudança em minha vida
Horários trocados, caixas fechadas, roupas perdidas no meio da bagunça
Eu penso que tudo aquilo deve ter um porquê
Mesmo que eu ainda não saiba qual é

Devo sim, viver um dia após o outro
Sem tentar entender o amanhã
Sem me apegar tanto ao passado
Pois cada tempo contém a sua magia
E a vida é assim, simplesmente feita de dias e dias

Pra mudar de praças, alamedas, avenidas
Pra contemplar outros ares, novas paisagens
Pra pular outros muros e sentir o gosto do novo
Pra sentir frio na barriga a cada encontro

Ainda assim me vem a saudade
Da janela que pulei
Do beijo que dei escondido
Da casa que nem sei mais onde fica

Nestas horas em que me pego pensativa
Olhando pro teto e pensando comigo:
pra que existe o hoje,
se nem vivemos o ontem e nem o amanhã ainda ?


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9.14.2007



O APERTO

Apesar de pequena, eu era muito esperta e ia aos poucos absorvendo o mundo das pessoas gente grande. O mundo de mamãe sempre tinha pra mim uma interpretação diferente, por exemplo: eu sabia quando ela estava nervosa, porque os olhos de mamãe ficavam meio esbugalhados. Quando ela estava brava comigo e ia me dar bronca ela me chamava pelo nome inteiro e a voz era mais aguda. Eu sabia quando ela tava cansada de mim, porque ela me dava um empurrãozinho de leve e me deixava brincar mais um pouco. Eu sabia quando ela tava cansada de falar com a titia ao telefone, porque revirava os olhos rezando praquilo acabar. Eu sabia quando ela tava anotando uma receita da televisão e se perdia, porque ela começava a coçar a cabeça com a ponta da caneta e mordia os lábios. E quando ela estava preocupada com o papai ela quando olhava muito no relógio antes dele chegar.

Só que naquele dia eu não conseguia entender os olhos dela, tão apertados ! As mãos, apertadas uma na outra. A voz, apertada. Tudo em mamãe era um aperto só. E então meu mundo, que sempre foi claro e largo, foi ficando apertado com o aperto que me veio no coração. Eu sentia que o coração da mamãe tava apertado com alguma coisa, mas não era como roupa, que a gente solta o laço e dá pra respirar, porque o coração quando estava apertado começava a querer sair pela garganta e era assim que ela estava, querendo soluçar. De soluço eu que era criança entendia também, desde o dia que apertei o dedo na porta e ficou preto na ponta da unha, mas já o coração não era igual ao aperto do dedo, devia ser coisa pior, porque mamãe ficou muda. Eu não estava acostumada com uma mãe muda, porque ela sempre falava tanto e falava alto, era um falatório ambulante a minha mãezinha, que tomava conta dos lugares, mas aquele dia ela estava muda. Eu, como era criança, sabia que não podia fazer nada pra ela mudar, então fiquei quieta ali ao lado dela, sentindo no peito o mesmo aperto que ela sentia, só peguei na mão dela, e apertei bem forte, pra sentir o calor da sua mão na minha. Quem sabe o calor do aperto de mão derrete o aperto que se tem no peito e no coração ?

Logo depois começou o agito na casa, titia já tinha chegado, os vizinhos apareceram aos poucos, uns queriam que ela comesse alguma coisa, outros tentavam faze-la tomar copos de água com açúcar, mas ela ficava ali, sentada no canto esquerdo do sofá, muda. Eu notei que ela nem tinha penteado os cabelos direito, então peguei a escova cor de rosa e comecei a escovar os longos cabelos de mamãe (assim talvez os pensamentos dela ficassem cor de rosa também).

A casa encheu de gente pra saber da notícia, depois esvaziou e só encheu de novo quando o caixão chegou. Um caixão grande, longo e preto, que não me deixaram olhar dentro. Eu só podia ficar perto de mamãe e segurar a mão dela bem forte. Titia ainda pediu pra eu rezar por ele, mas eu nem rezei porque sabia que ele nunca mais ia voltar pra casa. Mamãe sempre esperava por ele no portão às 11 horas da noite, mas aquele dia, como ele não tinha voltado nem às 11 horas nem mais tarde, eu desconfiei com medo que papai nunca mais voltaria pra nós.

Eu só sentia muito por mamãe, porque eu acho que papai tinha um abraço tão grande e quente, que ninguém ia conseguir abraçar ela igual a ele, afinal meus braços eram muito brancos, curtos e tão fininhos. A mim, só restavam as minhas mãos, estas sim podiam apertar bem forte as mãos de mamãe e era isso o que eu queria fazer....


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9.10.2007



O PAPEL DE BALA

Depois da porta aberta, tem tanta coisa lá fora, mas eu nem abri a porta hoje, nem o lixo eu joguei fora, fiquei com o lixo, deitei e dormi ao lado dele, abraçada, até o lixo tornou-se meu amigo e eu me senti um pouco lixo também. Pensei em não abrir mais a porta por um tempo, porque eu fiquei egoísta sem você. Parei de assistir televisão, e não me importo mais com a fome do mundo, não me interessa mais os moribundos, porque hoje em dia quem tem fome sou eu, eu tenho fome de você, e me tornei moribunda. Meus cabelos viraram uma pasta e sou suor por todos os poros, não tenho fome, não como mais, resolvi virar algo parecido com uma coisa que tenha na sala de estar.

Os dias passaram mudos, quietos, o lixo crescendo na sala, tomando conta de tudo e eu ali no meio dele, cansada e sem dormir. Sem vontade de fazer nada, minha vontade era tão pouca que eu nem me lembrava mais porque tudo isso começou. Será que comecei a ficar assim quando você me falou da viagem? Ou foi quando você me mostrou a passagem? Ou mesmo quando vc apareceu de malas prontas pra se despedir. Ali meu mundo caiu, virou apenas o lixo da sala de estar. Então eu resolvi entrar no saco preto, revirar o lixo, deslizar pelas paginas rasgadas, maços de cigarro amassado, me envolver com as cinzas do cinzeiro, e eu me misturei com o lixo. Quando você voltou, depois de uma longa semana de viagem, não me encontrou mais, porque só tinha no meio da sala, um saco grande e preto cheio de lixo e você pensou que eu tinha limpado a casa antes de partir. Só que eu tinha me tornado parte do lixo, eu gritava desesperada pra você ouvir, mas quem vai ouvir palavras de um papel de bala amassado no meio do lixo ?

Foi assim que nos despedimos depois que você voltou, eu agonizava no meio do saco preto, mas você nem notou. Depois de muito viajar num caminhão de lixo, eu vivo perdida num depósito da zona norte, a única coisa que me consola são as crianças sujas que vem me procurar no lixão. Elas sim gostam de mim, me transformaram em figurinha e brinco com elas de bafo e de outras coisas. Uma delas a Marcinha me roubou em definitivo e me guarda numa caixa de sapatos, no meio de suas coisas mais queridas, porque eu sou daqueles papéis de bala coloridos de rosa, escrito “Quero um beijo teu”. Como você nunca me enxergou lá dentro do saco de lixo, hoje eu voltei a me preocupar com a fome do mundo, e amo as crianças pobres muito mais do que amei a ti...



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8.31.2007



O NOME DAS COISAS

Era um casarão muito antigo, com o pé direito alto. Sua pequena estatura contrastava com a altura do teto, e como ela estava sempre a olhar pro teto estava abismada com aquilo que parecia tão longe, tão alto pensava: “mais alto do que aquele teto, talvez apenas o céu e as estrelas mesmo”.

Além do teto ela adorava olhar o céu, olhava as nuvens e ficava imaginando nas suas formas o que cada desenho parecia ser. Ali então se formavam intensas batalhas à sua frente, deuses míticos, cavalos alados que beijavam flores, dragões que pulavam cercas, e quando o dragão pulava a cerca, logo se transformava em outro ser, esta parte era para ela a mais difícil, imaginar no que a nuvem iria se transformar logo depois. Isso tomava horas de seu dia, e a pequena ficava olhando o céu até os olhos doerem com a luz.

Á noite ela pulava a janela e ficava deitada no chão da varanda grande, era ali que ela gostava de ver as estrelas, pontos brilhantes, constelações. Ficou intrigada no dia em que descobriu que o firmamento se transformava, mudava, andava, como podia ser ? Ah...a lua também era algo que lhe despertava profundo fascínio, e ela gostava mais das noites de lua, porque pra ela a lua era como se fosse um sol ao contrário.

Do sol não gostava muito, pois cegava o olhar, mas no fundo sabia o sol era necessário, pois sem o sol como haveria de ver todos os dias o por de sol ? Ah...aquele sim era seu momento preferido. Como um ritual diário, separava a hora do dia somente pra isso, e sentada na relva da montanha, assistia encantada ao por de sol. Muitas vezes largava tudo e sumia da turma, depois de algum treino, aprendera a contar as horas pela iluminação natural do dia, perto da hora, então já sabia que tinha que ir para o seu local secreto para assistir ao espetáculo da natureza.

Encantada, assistia sempre ao espetáculo de cores. A cada dia, cores diferentes que se misturavam de maneiras e formas diversas, sereno, devagar, quase imperceptível, o sol ia sumindo no horizonte, e a cada segundo derramava no céu cores que iam se difundindo em tantos tons de vermelho, rosa, azul amarelo, tantas cores que nem ela sabia descrever o nome, cores que acabavam de ser inventadas por Deus.

Enquanto isso, Dona Marta reclamava ao tio José, que não aguentava mais a menina, porque ela sumia a toda hora, vivia solta, correndo pelos cantos e olhando o teto, não comia direito, não queria estudar, vivia com a cabeça no mundo da lua, e como entender e aturar aquela sua mania insuportável de olhar o teto das casas ? Outro dia, contava Marta, tinham ido a casa da patroa, lugar chique, bonito, era pra menina estar atenta, apresentável, mas ela mal falou com as pessoas, só olhava o teto. “Seria normal aquilo ?” Indagava Marta preocupada ao Tio José.

O Tio ouviu as reclamações, quieto e paciente. Disse a Marta que iria conversar com a menina, pra ver se dava jeito naquilo. Saiu de casa com o chapéu na mão, sorriso escondido no rosto, já sabia onde procurá-la. Olhou o céu, calculou o horário, foi subindo a montanha. Ela estava ali, como sempre, a assistir ao espetáculo e nem notou quando ele chegou. Quando o viu, deu um grande sorriso, pulou em seu pescoço num abraço de criança, depois enfiou as mãozinhas no bolso de seu casaco procurando as balas de framboesa. Sentaram os dois na relva, comendo balas vermelhas, assistindo o sol se por devagar. Ela, como sempre, sorridente, disse então ao tio:

- Tio, obrigada por me ensinar o seu esconderijo, por me mostrar as estrelas e a lua. Como o Sr. ensinou, que é pra gente ter sorte, achei uma joaninha vermelha no teto já várias vezes. Só tia Marta que não gosta muito quando procuro... não sei por que.

- Ah ...agora falta o senhor me contar direito tio...é verdade que as estrelas tem nomes estranhos ?


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8.24.2007



ISTO NÃO É UM POEMA, É UMA NOVA HISTÓRIA DE AMOR

Tinha o coração cansado da vida,
tinha amado tantas vezes
que nem sabia mais contar quantas,
eram nomes de todos os tipos,
pessoas de todas as cores,
idades, e cheiros
historias compridas e sofridas,
e no final nenhuma dera certo...

Mas ela era uma mulher prática
Era sábado de aleluia e ela acordou cedo,
vestiu sua melhor roupa
escovou os cabelos
colocou um perfume discreto
maquiagem de cores pardas
bolsa pequena e uns documentos

Decidida, ja sabia como resolver
suas questões amorosas por completo
daquele dia em diante
apenas viverias amores platônicos

Pessoas que não pudesse tocar
bocas que não pudesse beijar
peles sem cor nem viço
toques frios, gelados, indolores

Seguiu para o cemitério,
olhou as fotos de relance, achou um interessante e adequado
anotou sua data de nascimento e morte
escolheu entre os túmulos seu primeiro amor
daquele dia em diante teria apenas duas datas pra comemorar.

Na data de nascimento do desconhecido
faria um bolo de aniversário, compraria presentes e bexigas,
cantaria parabéns e comeria brigadeiros.
Já na data da morte dele, choraria por três horas sem parar
e isso já seria ocupação para vários anos de sentimentos puros

Além disso, calculava ela, ninguém iria saber
não iria mais importar afinal
se ele era trabalhador ou folgado,
nem se era casado, viuvo, desquitado
se gostava do s.paulo ou do santos
se ele era grisalho ou tinha barriga
se usava camisas quadriculadas ou escuras
afinal, ele estava morto e um morto, ela podia amar a vontade !

Ah...pensou ela
- "Como não tinha raciocinado e pensado naquilo antes ??
Afinal se soubesse que era tão simples de resolver o quanto teria economizado com livros de auto ajuda e revistas ? "


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A CANTORIA

Tudo teve início quando trocou um bom dia com ela na feira de domingo, seu coração disparou e ele ficou mudo, derrubou as frutas da sacola, se atrapalhou todo e nunca mais trocaram palavras. Sua paixão por Marcinha começou ali e foi crescendo de uma maneira que não conseguia mais parar de pensar nela, sabia de cor os passos dela, seguia-a por todo canto, mas e a coragem pra dizer ? Começou então a arquitetar planos para aproximar-se dela, passava dias inteiros imaginando todos os detalhes, como num filme em sua mente. Teve enfim a idéia a partir de um programa de televisão, daqueles de auditório, populares. No começo chegou a pensar que seria ridículo um homem feito fazer uma coisa daquelas, em publico pra todo mundo ver, mas a menina valia a pena. Era de beleza !

E lá estava ele, roupa nova, banho tomado, gel no cabelo, camisa emprestada do irmão mais velho, músicos contratados, trilha sonora escolhida a dedo com a ajuda da família, som alugado, caminhão emprestado do tio-avô, seus primos, e até os amigos da rua, cada um ajudou como pode, dando dicas. Algumas músicas eram de matar...bem românticas, daquelas que as meninas gostam mesmo. E ele ia enfim dizer aos quatro ventos da paixão que lhe atormentava a alma há meses. Puxa...ia ser tão bom quando enfim a conquistasse ! Já imaginava até a foto ao lado do bolo de casamento !

Apesar de tudo já preparado, Miguel estava nervoso, todos aqueles preparativos tinham consumido suas economias de final de ano e sua energia também. Tinha imaginado tudo, passo a passo, nada podia dar errado, pensou até em fazer promessa, mas isso seria demais, isso já era coisa de tia velha! Além do mais, bastava tanto que já tinha feito!

Hora marcada, todos a postos, lá seguiu a comitiva rumo a rua debaixo, para a casa da pequena, um sobrado amarelo logo na esquina, com janelas grandes e uma sacada lateral e samambaias na janela. O pai dela nem ia ver porque àquela hora estava trabalhando na padaria, a mãe aposentada, ficava mais nos fundos e a janela dela, ele sabia de cor...era a da esquerda, de cortinas verde água.

Chegando lá, a equipe toda logo começou a cantoria debaixo da janela de cortinas verdes. Miguel, ao lado dos cantores, acompanhava desafinado, o gel escorria pelos cabelos, pois ele suava muito de nervoso. Com o barulho todo, os vizinhos começaram a sair pra ver, juntou uma multidão, mas nada da menina sair à janela. Mais uns minutos, cantoria solta, e sai na janela um homem gordo, de roupa de trabalho, uniforme de carregador de transportadora, boné, e cara amassada. Olha pra multidão, assustado, e pergunta:

- Ei moço, pra que tudo isso hein ?

Miguel, meio gago, responde ao microfone:

- A Marcinha...cadê ela ?

- Não sei não moço, levamos a mudança da família desta casa hoje cedo.


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8.20.2007



O DIA D

Talita, pernas compridas e magrelas estirada no sofá, olhava pro teto, maquinando coisas em sua cabeça : tinha decidido que daquela semana não passaria mais, colocaria um ponto final naquela situação, seria um divisor de águas em sua vida, nada mais seria como antes, tudo seria mais belo, mais puro, mais significativo... ela já estava decidida: iria se apaixonar ! Ela já sabia de cor como era, porque lera na revista que comprara na banca de jornal, e também lera umas poesias no livro do irmão mais velho, não tinha muito segredo, os sintomas eram simples de serem detectados e deliciosos de sentir: o coração batia mais forte, a mão suava, o corpo tremia, as pernas também ficariam bambas, a garganta seca. Sim...esses eram os sintomas iniciais. Pensou ainda em pesquisar se haviam mais alguns sintomas nos olhos, se iriam lacrimejar ou algo parecido. Mas acabou esquecendo-se deste detalhe, porque naquela hora havia mais coisas a pensar. Tinha que escolher a hora, a data, a roupa. Com que roupa a gente deve se apaixonar ? Talvez um vestido florido que esvoaçasse com o vento ? E os cabelos, como deveriam estar ? Presos num rabo de cavalo ou seguros em presilhas pequenas ? Decisão vital aquela ! Por fim, escolheu: usaria uma fita amarela nos cabelos, sandálias baixas de couro marrom, e o vestido de listras mesmo. Estava pronto o figurino ! Sorria feliz para o espelho. Ai teve que escolher a data. Terças e quintas não eram dias bons para apaixonar-se, pois tinha curso de inglês e natação, às segundas e quartas costumava estudar matemática, só lhe restava então a sexta-feira. Dia mais obvio do mundo, mas era melhor do que domingo, pois não gostava de domingos, os domingos sempre lhe traziam um tédio imenso e apaixonar-se não tinha nada a ver com domingos de tédio. Tudo pronto enfim. Roupa escolhida, dia escolhido...meu Deus ! E a hora ? A que horas a gente se apaixona mesmo ? Puxa..pensou ela...esta seria a parte mais difícil de decidir-se, porque havia tantas horas do dia que gostava. Gostava do amanhecer, porque tinha cheiro de coisa fresca, de ar puro, passarinhos cantando; já a hora do almoço, lembrava batatas fritas, que aliás, tinham tudo a ver com as coisas do coração; mas do que gostava mesmo era a hora do entardecer, por que havia o por de sol...sim isso mesmo ! O por de sol seria o cenário perfeito ! De pernas estiradas no sofá, ela já tinha em sua mente tudo pronto, decidido, desenhado. Agora faltava apenas um mero detalhe: o ser por quem ela iria enamorar-se. Esticou seu corpo esguio e magrelo de quase adolescente pela janela do quarto, gritou para a janela da casa vizinha:

- MARQUINHOOOOOOSSS !!!

Ele, esticou a cabeça pela janela, segurava ainda o controle do vídeo game na mão, com sua voz de menino, esquisita, respondeu do outro lado:

- "QUE É ???"

Talita então responde:
- Me encontra lá no parque daqui há duas horas ? Quero te mostrar umas figurinhas que troquei e são novas ! Mas tem que ser daqui a duas horas porque o sol vai se por e hoje é sexta, hein !

Ele responde num gemido, de preguiça de levantar..."tá boooom !"

Talita sai então rapidamente da janela, sobe as escadas pulando os degraus, corre para o quarto e, afoita, separa a fita amarela e começa a se arrumar...


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